Medo: Um estigma Social


“Toda segurança é insuficiente quando o inimigo é interno e voraz”

Por André Calcagno

Um dos efeitos do medo é perturbar os sentidos e fazer que as coisas não pareçam o que são.
Miguel Cervantes

As guerras, doenças, assaltos, sequestros, pobreza e a inevitabilidade da morte espreitam a frágil sanidade de nossa sociedade “bem sucedida”. O medo permeia a história da humanidade, tomando várias formas e sentidos. Porém, nos dias atuais este sentimento tomou uma nova dimensão tornando-se mais complexo e por vezes injustificável. Toda segurança disponível nos parece efêmera demais para nos dar paz.

Segundo Zygmunt Bauman, esta realidade de incertezas constantes e vida precária, resultariam na manutenção da “moralidade líquida”. Tal conceito se baseia na afeição da imagem que nós construímos do objeto, ao invés do objeto em si, transformando o outro em um item de consumo que deverá saciar nossas carências sem necessariamente assumimos um compromisso afetivo com o mesmo.

Esta tentativa de suprir nossas necessidades em algo externo a nós não é exclusividade das relações interpessoais. Quando tratamos do medo causado pela violência que assola nossa sociedade, buscamos meios que nos garantam uma sensação de segurança. E ao analisarmos a fundo esta sociedade amedrontada, podemos identificar estruturas de uma arquitetura do medo, que está mais presente no nosso dia a dia através de câmeras, muros cada vez mais altos, cães, seguranças particulares; mas só para quem pode arcar com estes honorários.

Todos estes meios, na verdade, estão longe de garantir nossa liberdade, e acabam por nos aprisionar cada vez mais. Geram a paranóia da constante insegurança, ilhando o indivíduo e favorecendo uma virtualização das relações. Afinal, como diria Bauman: “Manter-se a distância parece ser a única forma razoável de proceder”.

Ainda segundo Bauman, a liberdade sem segurança não tende a causar menos infelicidade do que a segurança sem liberdade. Já Freud em “O mal-estar da civilização” diria que “trocamos uma parcela de nossas possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança”.

Para boa parte das grandes empresas, o medo é um recurso renovável e absoluto para obter lucros altíssimos. Sem ele, empresas de segurança e farmacêuticas dentre tantas outras sucumbiriam. Outro mercado que lucra e exerce poder sobre as massas graças ao medo são os meios de comunicação, principalmente os mais sensacionalistas que geram em nós uma relação dúbia de sentimentos. De um lado a repugnância, o horror e a lamentação diante da violência e da miséria, do outro lado, um gozo secreto pela oportunidade de ver a destruição humana em múltiplas maneiras no conforto de nosso sofá. O resultado destas instâncias não tarda a aparecer, eis o medo.

Uma pesquisa feita por Layne Amaral, professora da Faculdade de Comunicação Pinheiro Guimarães; publicada na revista Logos, em 2007, mostrou que a divulgação da violência pela mídia faz as pessoas adotarem comportamentos amedrontados. Em ‘Mídia e violência urbana: o corpo contemporâneo e as suas afetações em uma cultura de risco’, a autora fala sobre como a mídia costuma tratar a violência com um grau de veiculação exagerada. Baseada em trabalhos do teórico da comunicação norte-americano George Gerbner, ela acrescenta que essa veiculação exagerada nos dá uma sensação de insegurança, ansiedade crescente e faz com que acabemos por desenvolver problemas psicológicos. Não que a mídia seja a causadora desse sentimento, mas acaba de certo, a reforçar e estimular a indústria do medo.

Sociedade de Risco

Para o sociólogo Ulrich Beck, em algum momento dentro da modernidade, houve uma ruptura que nos afastou da sociedade industrial clássica e fez surgir algo diferente: a sociedade (industrial) do risco. Essa ruptura resultaria do fracasso ao tentar desenvolver plenamente a modernidade, dando origem a elementos de contramodernidade como: guerras generalizadas, governos totalitaristas, opressão às mulheres, entre outros. Nesta fase de desenvolvimento da sociedade semimoderna, como nomeou Beck, os riscos políticos, econômicos, industriais, ecológicos e sociais tomam proporções cada vez maiores, escapando da alçada das instituições de controle e proteção da sociedade industrial. Sob a ótica da vigilância e espreita temerosa a qual nos submetemos, a ciência é um dos mais fundamentais meios de legitimação e reconhecimento desses riscos.

Nesta realidade, configura-se um novo tipo de conflito social que não pode mais ser compreendido através da luta de classes postulada por Max. A dualidade aqui se apresenta de maneira completamente diferente, pois se na sociedade de classes a propriedade pressupõe que existam expropriados, os riscos se distribuem de forma democrática: estar afetado e não estar afetado pelo perigo não se polarizam como possuir e não possuir. Ainda que a riqueza traga algumas garantias, traz consigo também novos temores.

A Teoria de Beck é polêmica, mas há um consenso. O risco é um fato cada vez mais presente no cotidiano. Faz-se necessário o debate e reconhecimento desta realidade. Segundo Alceu Mauricio Junior, co-líder e pesquisador do grupo de pesquisa Estado de Direito e Sociedade de Risco na PUC-Rio, a sociedade ainda se mobiliza pouco para as questões do risco, principalmente pela falta de informação. “A deliberação popular é importante, mas necessita ser uma deliberação informada”, enfatiza, lembrando que os cursos de direito e outros da área de ciências sociais devem incorporar o estudo do risco, como forma de preparar esses profissionais para a discussão.

Nunca ficamos e nunca ficaremos livres deste opressor. Mas em uma sociedade que se alimenta de medo, faz-se necessário conhecer suas causas e motivações.

*A pesquisa foi realizada nos dias 19 e 20 de maio de 2012, e consultou 60 pessoas entre 20 e 60 anos.

Não podemos ignorar também que para alguns, sua constância é um alívio, já que não estão preparados para lidar com a liberdade que o controle do medo proporciona. Para nos livrar de qualquer parcela de medo, temos de estar preparados para não termos mais este refúgio contraditório e insólito, afinal “A conquista da liberdade é algo que faz tanta poeira, que por medo da bagunça, preferimos, normalmente, optar pela arrumação”. (Carlos Drummond de Andrade)

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Brasil: um país de animais abandonados

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Cães são levados à feira para adoção

Por Larine Flores

Abandono e direitos dos animais no Brasil

 Às vezes, chegam em pequenas caixas, enrolados em cobertores e com os olhos ainda fechados. Em outros casos, aparecem na porta, deixados para trás por uma família que “não pôde cuidar”. Ocasionalmente, se apegam e os laços são criados sem que a família perceba. Talvez alguma tia o ache um presente diferente no Natal. As maneiras com que a adoção de um animal acontece são variadas em quantidade e qualidade, assim como seu convívio e destino.

No Brasil, cerca de dois milhões de cães se encontram em situação de abandono e sabe-se que o número é bem maior quando outras espécies domésticas são contabilizadas. Mas o que leva tantos animais às ruas? No Brasil, uma das justificativas mais populares para o abandono é o desemprego e a crise econômica. A partir do momento em que a família precisa privar-se de algum entretenimento ou até mesmo fazer uma pequena economia, o animal de estimação é o primeiro a sair da lista de prioridades. Nas festas de Natal e Ano Novo, que coincidem com as férias escolares, a situação se agrava e o abandono pode aumentar em até 70%. Os motivos mais comuns são as viagens de fim de ano e a falta de espaço para o animal no destino ou impossibilidade de levá-lo com a família. Em alguns casos, o período é muito longo e não há quem cuide do animal.

Atualmente uma nova modalidade de abandono vem acontecendo e, por incrível que pareça, mais comumente entre as classes média e alta. Os hotéis para animais, pet shops e consultórios veterinários vêm sendo cada vez mais vítimas de golpes em que o dono leva o animal, muitas vezes de raça e pedigree, para tosa, banho, consulta ou estadia, e nunca mais volta. É o chamado “abandono premeditado”, onde o suposto cliente informa nome e telefone falsos e se torna incomunicável quando o animal fica pronto para ir pra casa.

O Brasil ainda não tem uma legislação específica para os animais, portanto, a principal ferramenta de proteção aos animais é a Lei Federal 9.605/98, que trata de crimes ambientais. Segundo ela, “praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos” tem pena de três meses a um ano de prisão e multa, que é aumentada de um terço a um sexto se o animal morrer.

A lei atual considera maus-tratos abandonar, espancar, envenenar, deixar de alimentar, manter preso em corrente ou local pequeno ou sujo, entre outras práticas. Para que o agressor do animal seja punido, é necessário que uma testemunha denuncie a situação, não se omita.

São Paulo, a maior cidade do país, tem pelo menos 60 animais recolhidos diariamente pelo Centro de Controle de Zoonoses. Segundo o Centro, 80% deles não são resgatados e precisam ser sacrificados. O problema não é exclusivamente brasileiro. Nos Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, Suíça e Suécia, a tecnologia já permite que os pets tenham microchips implantados sob a pele, o que possibilita o rastreamento em caso de perda ou fuga, mas também ajuda a localizar o dono de um animal abandonado e puni-lo. Infelizmente, pelo custo elevado, a solução não é acessível para todos os países ou classes sociais.

Apesar das dificuldades e dos números pessimistas, existe um grupo de pessoas que cresce a cada dia: os protetores. O título, que não é mais exclusivo de veterinários ou criadores, é frequentemente empregado para caracterizar pessoas que se importam e realizam ações em prol dos animais. Um protetor muitas vezes não tem oportunidade de fazer grandes doações ou criar um canil em casa, mas muitas vezes um abrigo temporário em dias de clima hostil, enquanto o animal espera transferência ou adoção, durante gestações ou convalescência.

Barra Mansa na luta pela adoção

Em Barra Mansa, interior do estado do Rio de Janeiro, a Associação de Protetores dos Animais é uma das instituições que realizam o trabalho. Além de manter um canil com média de 80 animais onde apenas vítimas de abandono, doenças ou desnutrição extrema são aceitos, a APA-BM promove todos os sábados, de 9h30 às 13h, uma feira nas proximidades da Praça da Preguiça, no centro do município. Lá, os animais têm a oportunidade da adoção e os visitantes podem doar e conhecer o trabalho da Associação.

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Uander com Lassie e Beethoven, filhotes adotados

No sábado, 5 de maio, 12 animais foram adotados no que foi considerada uma “manhã proveitosa”. Entre as famílias adotantes está a de Uander da Silva, que resgatou dois filhotes, Lassie e Beethoven. “Os animais são companheiros. Eu tenho uma irmã pequena que adora animais e sempre pediu que tivéssemos um cachorro e, como não queremos que ele se sinta sozinho, achamos melhor ter dois!”

Não só de adotantes a feira é composta. Dona Maria das Graças Oliveira Seixas, do bairro Boa Sorte, estava lá, levando seus animais para adoção. Os cães Crodoaldo, Tereza Cristina e Griselda, nomeados graças à personagens da novela Fina Estampa, já não são mais tão filhotes. A mãe deles, uma cadela em estado de desnutrição e abuso nas ruas, foi encontrada por Dona Maria já esperando os filhotes e resgatada em sua casa. Depois do nascimento, ela ainda cuidou dos animais até que tivessem idade suficiente para saírem do convívio da mãe. “Por vontade, ficaria com todos, mas moro em uma casa pequena e não existe espaço para todos eles. Prefiro que alguém com espaço e mais disponibilidade possa dar uma vida melhor a eles”, ela declara já com saudade.

Maria Aparecida Moreira, de 58 anos, moradora do bairro São Luís, foi outra adotante. Ela, que se diz uma defensora amorosa dos animais, abraçou seu novo companheiro e confessou quanto um animal faz falta em qualquer casa. “Eu já tive outros animais e não consigo viver sem, adoro criar e cuidar deles, é minha paixão!.”

Infelizmente, na Feira também são atendidos casos não tão felizes. Fabiano Rodrigues de Brito, de 31 anos, é morador da Vila Maria e compareceu ao evento para levar um animal com uma grande lesão no abdômen. De acordo com Fabiano, se o cão não fosse salvo naquele momento, correria risco nas ruas, tanto por outros animais quanto por humanos, que poderiam se assustar com o ferimento e rechaçá-lo. O animal foi acomodado em um abrigo improvisado durante a Feira e levado ao Canil da APA para tratamento.

Maior que o desejo de ver os animais adotados é a responsabilidade para que o futuro deles seja melhor que o passado. Tanto nas Feiras quanto no Canil, o candidato a adotante precisa apresentar um documento de Identidade, CPF, comprovante de residência e um termo de adoção preenchido. O termo nada mais é que uma declaração detalhada das condições familiares e residenciais em que o animal viverá. Se aprovada, a ficha é encaminhada para a sede da APA, onde fica retida por um tempo médio de 45 dias, quando agentes da instituição visitam o local e verificam as informações e a situação do animal.

A APA ainda aponta a necessidade da solidariedade para que cada vez mais animais sejam ajudados. Ração, jornal, cobertores, toalhas e até medicações de outros animais são aproveitadas pela instituição, que tem a maioria da renda advinda de outros apaixonados por animais. Ainda é importante ressaltar que somente voluntários trabalham no local e que qualquer pessoa pode também colaborar.

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A APA-BM conta com doações para manutenção dos cuidados aos animais

A adoção no país também precisa passar pela barreira do preconceito: a maioria dos animais negros, deficientes e mais velhos não é adotada. O canil da APA conta com cerca de 15% de animais na linha da não-adoção e já os considera cativos, já que a adoção é muito improvável. Um dos motivos pelos quais eles não são adotados muitas vezes cai para a crença de que ele não se adapte ou habitue com o novo ambiente. Segundo os protetores, tais animais são ótimas companhias para aqueles que não têm muito tempo ou não podem ser tão presentes no cuidado com o animal. Além de não estarem mais na fase da agitação natural dos filhotes, eles também valorizam mais o contato com o dono, demonstrando um comportamento mais carinhoso.

O problema predominante na questão do abandono é a falta de perspectiva futura no ato da adoção. O animal, filhote, frágil e novidade, deixa de ser interessante em seu crescimento ou comportamento. É necessário que haja conscientização de que, como qualquer ser vivo, o cão ou gato apresentará comportamento próprio e muitas vezes a tolerância precisará ser exercitada no convívio diário. Outro ponto importante é lembrar que o animal tem uma estimativa de vida longa e precisará de cada vez mais cuidados com o passar dos anos.

Cães, gatos e outros animais domésticos são cientificamente comprovados como portadores de sistema nervoso desenvolvido, o que os concede sensibilidade física e também capacita a empatia com sentimentos humanos. No momento do abandono e na situação de rua, eles podem desenvolver traumas assim como os seres humanos, criando comportamentos ariscos, agitados e até mesmo temerosos. Por este motivo, os animais encaminhados para canis e associações são frequentemente pacientes de tratamentos psicológicos onde é valorizado o convívio pacífico com outros animais e o tratamento de respeito e carinho com os humanos. A maioria dos animais não se recupera totalmente, vivendo ainda com os traços das situações de risco que viveram.

Até a data do fechamento desta edição, a Associação dos Protetores de Animais lutava em busca de espaço e infra-estrutura para promover o bingo beneficente em prol dos animais. Contudo, a quantidade de recursos e prendas ainda era limitada.

Abandono de animais: além da superpopulação

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Gatos também são doados na feira


O abandono é, além de um problema que acomete os animais, uma questão de saúde pública que muitas vezes é incentivada e agravada pela própria sociedade. A criação e venda de animais é uma atividade muito condenada pelos protetores. Henia Silva de Vasconcelos, presidente da Associação Protetora dos Animais de Barra Mansa, fala sobre issoe salienta que a procriação compulsiva pode causar diversos prejuízos à fêmea e à cria, que na maioria das vezes não consegue os nutrientes necessários no leite da mãe, já debilitada.

Maus tratos aos animais e a revolta popular

Em dezembro do ano passado, um caso de maus-tratos chocou o país. Uma enfermeira de Formosa, em Goiás, foi gravada enquanto agredia um cão da raça yorkshire. O pior: sua filha de três anos assistia ao espancamento. O caso repercutiu a nível mundial e explodiu na mídia. O vídeo rapidamente se espalhou nas redes sociais e as mais diversas opiniões foram dadas sobre ele. No fim, Camila Corrêa alegou sofrer com a situação, sentir muito arrependimento e estar em choque, mas a população não perdoou. Com a cobrança popular, ela foi julgada pela morte do animal e também por exposição da filha a constrangimento. Graças à primariedade do crime, Camila teve a pena de até um ano e meio de detenção reduzida a uma multa de R$3 mil, que poderá ser revertida em cestas básicas e prestação de serviços.

Se liga! A Luta é social

A militância jovem grita e faz a diferença através dos tempos

Por Juliana Neves

manisfetação do movimento estudantil

 Os efeitos atuais dos constantes escândalos na esfera pública têm assustado a população mais jovem e gerado consequências evidentes entre eles. Dentre estereótipos como alienados, desinteressados e inconsequentes, talvez o que mais se encaixe seria algo mais romântico, como desiludidos. Esse grupo, entre 16 e 29 anos, soma cerca de 48 milhões da população brasileira. De acordo com dados da Unesco, 73% diz não ter nenhum interesse em participar politicamente do rumo de seu país, 96,1%  diz não confiar no poder legislativo e 69,5%  não confiam no judiciário.

Enquanto a imagem da política parece estar em decadência por uma parcela significativa dos jovens brasileiros, ainda há uma corrente, mesmo que rasa, que vem ganhando força. Os movimentos organizados. Dispostos em grupos diversos e com diferentes objetivos, os jovens que se empenham em partidos e grupos sociais geralmente iniciam o interesse pelo campo político a partir dos diretórios acadêmicos e movimentos estudantis dentro das escolas e universidades e acabam levando isso para fora dos muros disciplinares e colocando em ação no “mudo real”.

Para Marina Lemos, 26 anos, formada em letras, estudante de relações internacionais na USP (Universidade de São Paulo)  e militante ativa pela UJS (União da Juventude Socialista), “o jovem desconfia do poder, da sociedade onde vive e do futuro desta sociedade” Segundo a militante, essa desconfiança não é privilégio dos brasileiros, mas “ aqui, a situação parece ser mais alarmante, primeiro por que é o que estamos vendo de perto, e segundo, temos que levar em conta que a democracia brasileira – apesar de ser recente e, portanto, ainda em amadurecimento –  está estável desde que nascemos. Nós vemos escândalos de corrupção,  mas não vimos de maneira consciente a crise de 92, ou a briga pela democracia. Nós vemos o agora, ele nem sempre parece agradável, mas já não é tão ruim quanto foi para os jovens do passado. Estamos em um meio termo.”

 Marina coloca a democracia atual como uma jovem adulta, ainda está crescendo e aprendendo, mas já passou da fase pré-adolescente problemática. “Na UJS, somos um movimento primeiramente estudantil, mas isso não significa uma luta restrita, nós queremos melhores condições de educação, sim! Mas queremos também que a mulher seja respeitada, assim como as etnias, as religiões e opções sexuais. Queremos condições de saúde e acesso a cultura. E essa luta é nacional, é minha, é sua. Ficar de braços atados falando mal dos escândalos não vai mudar nada. Eu quero fazer a diferença, e mudanças significativas são conseguidas através de militância. O movimento específico e organizado é essencial para isso, você tem pessoas unidas num mesmo propósito e ajuda a amadurecer sua consciência critica e politica.”

encontro do movimento estudantil

Para Thaís Tavares, 19 anos, estudante da UFF (Universidade Federal Fluminense), militante no movimento estudantil Kizomba e filiada ao PT (Partido dos Trabalhadores) ser jovem e estar na política é algo normal “Tenho muitos amigos que são membros orgânicos (ativos) dentro dos partidos. Na juventude do PT nós construímos novas ideias juntos e é algo normal, faz parte do nosso cotidiano”. Quando questionada sobre os jovens dentro dos espaços públicos ela concorda que há resistência não apenas do jovem, mas da população em geral. “quando se é novo, você é classificado preconceituosamente como “descabeçado” ou alguém que tem grandes chances de cometer graves erros. O jovem por sua vez, se auto-classifica como alguém que tem que “curtir”, mas eu não sei de onde surgiu a ideia de que você não pode errar  ou a de que não pode se divertir e estar na política ao mesmo tempo ”. Segundo a estudante, o intuito de organização é exatamente o de fazer pensar junto e unir forças “ Se você errar tem um monte de gente para te corrigir” ela completa enfatizando que é possível conciliar e separar, mesmo que minimamente, a vida política e pessoal. “ Não é como se fossemos de outro planeta, eu também namoro, vou à festas, shows, fico no facebook e nada me impede de estar ativa dentro do partido,” explicou, dizendo ainda que apesar da conciliação, as escolhas na vida de um militante acabam sempre passando pelo ativismo.

UNE e Juventude do PT

Sobre a candidatura de jovens à cargos públicos, Thaís foi contundente:  “tenho amigos de 20 anos que vão vir como candidatos a vereadores nestas eleições, e estamos confiantes na vitória.” Para a universitária não existe idade certa para se envolver com causas públicas e sociais “É claro que há coisas que apenas a experiência te ensina e isso só se consegue com o tempo, mas é necessário se fazer algo ao longo desse tempo, e por que não buscar melhorias, lutar por políticas especificas, participar de movimentos organizados e se politizar?” concluiu dizendo  acreditar que sua geração pode continuar o trabalho dos jovens do passado. “Acredito na minha geração e na que está por vir, mesmo que digam o contrário, não pretendo deixar de acreditar.”

Entre o ontem, o hoje e o amanhã

A história fala por si só

manifestação de estudantes é contida pela PM

No mesmo ritmo em que a juventude é vista como o futuro do Brasil, é apontada como perdida. Para entender essa gente que quer mudar o mundo com a mesma intensidade que quer aproveitá-lo, é necessário que olhemos para os jovens de ontem para conhecermos as transformações que enfrentam e provocam.

 A juventude sempre esteve presente em momentos importantes na história. No Brasil, não foram raros os momentos em que a voz vigorosa dessa parte da população se organizou e tomou forte e decisivo posicionamento perante a sociedade, defendendo no grito e na raça seus ideais e sendo elemento de peso na transformação da história e do rumo do país.

 A carioca Maria Aparecida, de 62 anos, que pediu para ser identificada apenas pelos primeiros nomes, é professora de história e especialistaem política. Sobresua vida, ela conta que passou sua juventude engajada em causas pública, parte da idade adulta estudando os jovens do passado e a outra parte lidando com os jovens nas salas de aula, por isso se considera uma Mestre quando o assunto é “essa gente que está conhecendo o mundo”. Ela tinha 14 anos quando o Brasil viveu um dos momentos mais marcantes já registrados, o Golpe Militar. Quando questionada sobre como foi o ativismos jovem neste período, diz que era “rebelde desde cedo” mas que a história começou muito antes dela.

O início

Maria lembrou que em 1710, enquanto a cidade do Rio de Janeiro era invadida por cerca de 1200 soldados franceses, uma multidão de estudantes se destacou ao enfrentar os invasores, causando a perca de mais de 400 oficiais franceses, vencendo o confronto e expulsando-os da cidade. Em 1786, 12 jovens fundaram um clube pela independência do país e foram fundamentais na Inconfidência Mineira. A professora usa o momento para enfatizar que a luta sempre esteve presente se adaptando às circunstâncias.

UNE pelo Brasil

Consultando os livros, Maria Aparecida fala sobre o momento que considera um dos mais importantes: a fundação da Federação de Estudantes Brasileiros, ocorrida em 1901, que iniciava a organização dos estudantes em entidades representativas e 36 anos depois, em 1937, era criada a UNE (União Nacional dos Estudantes) a entidade máxima de representação dos jovens universitários. Segundo Maria, a UNE foi fundamental não só para o país, mas para ela mesma.

– É claro que em 1937 eu nem era nascida, mas resgatar esse momento, ainda mais repassando para os jovens de hoje, cria um sensação de gratidão a esses nomes que em um belo dia resolveram se organizar, mesmo que os motivos não fossem os que consideramos os mais nobres e as relações fossem diferentes, mas eles agiram. Isso mostra que lugar de jovem é na política usando todas as ideias e mostrando coragem. Eu gostava disso, de arriscar e brincar com o medo. A sensação de afrontar e mostrar que podemos fazer algo maior que nossa casa é maravilhosa. Antes isso era um escândalo, era em 1970, imagine em 1937. Não acredito que quando criaram a UNE imaginaram que seriam tão importantes para o país, mas foram. Foram importantes para minha vida, sou essa mulher de 62 anos com três netos e loucas histórias de aventuras para contá-los porque um dia me “enrabichei” por um ator de teatro, um “subversivo” que me levou para União que por sua vez mudou o meu mundo.

Ao continuar a história, a professora conta que em 1952 os jovens foram novamente fundamentais com a campanha “O Petróleo é nosso” pela criação da Petrobrás. E nos anos de 1961 à 64 eles foram responsáveis por um dos mais significativos acontecimentos de movimentação cultural no Brasil. Foi a época do CPC  (Centro Popular de Cultura) da UNE que influenciou toda uma geração. “O CPC  reunia artistas, filósofos, intelectuais e estudantes que queriam transformar o país com ações culturais e desenvolvendo consciência crítica nas classes trabalhadoras e nos subúrbios da cidade.” Os projetos levavam oficinas de literatura, cordel, musica, dança e filosofia para vários pontos do Rio de Janeiro. As tentativas de expandir para outros estados acabou não dando certo. Em 1964, logo após a queda de João Goular e o Golpe Militar, o Centro foi fechado por representar um “perigo” para a ditadura. Os críticos e historiadores mostram que as percepções desses jovens sobre os vínculos entre arte e política contribuíram para delinear as características da produção cultural brasileira nas décadas seguintes.

Frente à Ditadura Militar

O Golpe, instituído em 1º de abril de 1964, durou até 1985. Neste período as eleições eram sem a participação direta da população. Os Jovens formaram uma das principais resistências contra o regime, utilizando de jornais clandestinos, manifestações nas ruas, ou através de músicas, teatros e até mesmos de grupos armados.  Em 68, após o assassinato do estudante Edson Luís, a UNE foi atacada durante uma reunião onde centenas de jovens foram presos, torturados e mortos. No mesmo ano, em reposta, a juventude organizou a passeata dos Cem Mil, que tomou as ruas do Rio de Janeiro com jovens e cidadãos que apoiavam a causa contra os abusos dos militares.

Maria Aparecida se empolga nesta parte da história “eu tinha meus 18 ou 19 anos, foi quando comecei uma paquera com um rapaz completamente fora do aceitável para meus pais” ela se diverte ao lembrar que na época em que se juntou aos “rebeldes” estava querendo, na verdade, ficar junto ao namorado. “imaginem uma garota com faixa na cabeça e aquelas saias ridículas, completamente apaixonada. Era a Maria em 1968 ou70.”

– O namoro acabou, mas a luta continuou. Nesse período usávamos nomes diferentes e foi quando nos demos conta do que estávamos fazendo. Foram os piores anos, os Anos de Chumbo. Os motivos de estarmos na causa se tornaram mais forte do que seguir um namorado ou qualquer outra coisa. Pessoas estavam morrendo, amigos sumiram, acho que foi quando me dei conta de que tinha me metido em uma confusão, mas não tinha volta. Estava apaixonada, desta vez pela causa nacional. – concluiu muito emocionada.

De Diretas Já ao grito dos Caras Pintada

Maria conta que por ter cedido ao medo teve que se mudar “Saí do Rio no fim dos anos 70, início de 80. Um pouco antes, um grande amigo foi preso e torturado. Foi a primeira vez que os ‘milicos’ pegaram alguém tão próximo. Então, fiquei grávida do meu primeiro filho, foi o suficiente para me fazer sair da cidade”, explicou, dizendo que até os dias de hoje não sabe se fez o certo. A professora conta ainda que o mais perto que voltou a estar da luta contra os militares foi pelos relatos de amigos e conhecidos. “Eu já tinha mais de 30 anos quando assisti de longe os estudantes se re-organizarem depois daquele filme de horror que passamos, e terem “peito” para aquele grito fantástico, foi de arrepiar”, disse Maria Aparecida, lembrado que em 1984, após restabelecerem as entidades estudantis, os jovens levaram para as ruas o grito “1,2,3,4,5 mil. Queremos eleger o presidente do Brasil!” Diretas já! O movimento teve participação fundamental dos estudantes além da população e políticos progressistas que exigiam aos berros a volta das eleições diretas. “Era o governo do João Figueiredo, nessa época eles [o governo] ficaram loucos, a censura da imprensa era absurda, só víamos o que eles queriam e muita gente foi presa.” lembra, ressaltando que infelizmente, a vitória naquele ano não foi completa. “Fiquei revoltada quando não tivemos eleições diretas em 85, mas ao menos Tancredo assumiu e isso foi, sem dúvidas, muito importante. Ele era um dos que apoiavam o movimento, juntamente com Lula, Brizola, Fernando Henrique, Chico Buarque, Mario Lago, entre vários nomes”

  

Somente em 1990, depois de 34 anos sem eleições diretas, o povo elegia para presidente do Brasil, Fernando Collor de Melo. Era chegada a vez da juventude de 1992 tingir o rosto de verde e amarelo e intervir na política nacional. Os Caras Pintadas lutaram e conseguiram o Impeachment histórico do então presidente.

De FHC à Dilma Rousseff

No fim dos anos de 1990 e início dos anos 2000, os estudantes começam uma série de denúncias contra o governo de Fernando Henrique Cardoso. Eles acusavam o então presidente de neoliberalismo e traição nacional devido os processos de privatizações do governo. A bandeira erguida por milhares de militantes que tomaram Brasília foi: “Fora FHC”. O movimento acabou sendo decisivo nas eleições presidenciais de 2002, onde o PSDB ( Partido da Social Democracia Brasileira)  de Fernando Henrique, não conseguiu eleger José Serra que perdeu nas urnas para Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, que teve o apoio dos jovens  com a campanha “Lula UNE o Brasil”.  Com o apoio dos estudantes o governo criou a Secretaria Nacional de Juventude e o Conselho Nacional de Juventude, que coordenam e acompanham projetos como o Pró-Jovem, ProUni, Agente Jovem, Primeiro Emprego, Escola de Fábrica, Juventude e Meio Ambiente, Pornaf Jovem e Nossa Primeira Terra.

Em 2010 os estudantes apoiaram a ex-militante estudantil na época da ditadura, Dilma Rousseff, que veio a se tornar a primeira mulher eleita presidente do Brasil.

Em 2012 centenas de jovens foram para frente do Palácio do Planalto com faixas e cartazes de “Veta, Dilma” para pressionar a presidente a vetar o texto do código florestal aprovado pelo congresso.

Maria Aparecida diz que se orgulha do Brasil e se emociona ao falar sobre a juventude de hoje, “Vocês [os jovens] são o futuro do meu passado. Nós lutávamos acreditando em um futuro melhor para o país, e o futuro chegou.”  Ela acredita que a principal diferença entre as gerações, é que antes os jovens abdicavam de tudo pela vida política e hoje tentam conciliar a vida pessoal e a militância. “Quando olho atos como a manifestação contra o código, chego a conclusão que mudam as roupas, as Marias e os Josés, podem até mudar as causas, mas a história é sempre a mesma. O jovem veio para renovar, para mudar, e mesmo que digam que não se importam, são eles os únicos destemidos o suficiente para alterar o rumo das coisas.”

Como mostra a história e cada degrau avançado ao longo dela, os jovens estiveram presentes realizando mudanças e lutando pela realidade nacional desde o Brasil Colônia. Os movimentos organizados de juventude, sociais e de massa, ao lado de entidades representativas e instituições acadêmicas, têm buscado a inclusão de inúmeras reivindicações na pauta da agenda governamental nos planos nacional, estaduais e municipais. E esses, que vão para luta, não são diferentes. Como todo jovem, erram, acertam, se sentem super-heróis, querem aproveitar e ver tudo. São acelerados, ocupados, explodem em ideias e são carregados a mil por hora. A própria ciência mostra que todos esses impulsos e energia são próprios da juventude.  É a fase em que o corpo está pedindo para se aventurar, que o cérebro trabalha com tudo e que a própria inexperiência da vida dá espaço para sonhos altos, que por sua vez, são ponto de partida para grandes conquistas.

Há quem diga que os jovens do passado eram diferentes dos de atualmente, mas talvez, a grande diferença seja que os de 1964 foram confrontados com algo extremo, foram desafiados mais de perto, tiveram o dedo apontado em suas caras, o que acordou o “bicho” da revolução que dorme dentro de cada um. Já os de hoje vivem uma realidade mascarada, com confrontos velados e indiretos. A presença do tal “bicho” não vem sendo desafiada o suficiente, mas os que acordam, levantam com força, com garra e continuam subindo os degraus que por vezes parecem infinitos, mas precisam ser escalados um a um, para que o jovem de amanhã esteja mais perto do topo.

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Atualmente a UNE, apesar de ter perdido a força que tinha no século XX, ainda está presente em várias instancias pública.  Em Julho de 2011 os movimentos estudantis de todo o Brasil se reuniram em Goiânia para eleger a nova diretoria da União. foram milhares de jovens de todos as regiões e sotaques que lotaram a cidade e o Estádio Serra Dorada para decidir a maior representação de jovens estudantes do país. Do Sul fluminense saíram dois ônibus lotados de jovens engajados na luta política que queriam expressar e apoiar sua chapas preferidas. A Delegação do estado do Rio foi a segunda maior naquele evento, que contou com mesas de debate, troca cultural e grupos de discussões para pensar em políticas voltadas pára a juventude. A chapa vencedora foi a chapa um, que elegeu como presidente da Une , o militante  Daniel Illiescu e para vice-presidente  Clarissa Cunha.

Assista abaixo o discurso de Clarissa Cunha ao defender sua chapa durante a 52² CONUNE ( Congresso Nacional da UNE)

Crowdfunding

Transformando projetos inovadores em realidade

Por Vinícius Magalhães

 O crowdfunding (financiamento coletivo),  é a arrecadação em dinheiro, no geral, de pessoas físicas que se interessam por algum projeto de cunho mercadológico, social ou artístico e que necessite de ajuda financeira para se concretizar. No geral, as divulgações desses projetos ocorrem através de sites na internet criados especialmente para essa finalidade.

O intuito é transformar projetos inovadores, pequenos negócios e ações filantrópicas em realidade, podendo o projeto dar em troca ao financiador o produto já pronto, um desconto ou uma recompensa proporcional à quantia que ele aplicou.

Atualmente existem dezenas de sites com essa proposta, tendo como destaque o Kickstarter nos EUA e o Cartase no Brasil. O funcionamento é relativamente simples: o usuário submete um projeto à equipe de curadoria do site informando objetivo, justificativa, orçamento, prazo de captação e recompensas aos patrocinadores. Quando aprovado, o projeto é publicado na plataforma online.

O Kickstarter e o Catarse não aceitam projetos de caridade. As ideias podem envolver uma causa social, mas devem ser criativos, e sempre devem oferecer recompensas. Se o projeto anunciado for um filme, por exemplo, o financiador pode receber uma cópia gratuita em primeira mão, ou ser recompensado com uma experiência criativa, como uma visita ao set de filmagem, um telefonema do autor, ou um jantar com o elenco. Por outro lado, propostas que envolvam rifas, sorteios, retorno financeiro e participação societária são proibidas.

Ambos os sites deixam claro que não financiam empresas, apenas projetos. Se o empreendimento tem como intuito ganhar dinheiro, não há nenhum problema,   contudo, esse projeto precisa ser finito, com um começo e um fim bem delimitados.

Os dois utilizam um sistema denominado “tudo ou nada”, ou seja, se a meta de arrecadação não for atingida dentro do prazo estipulado, o projeto é cancelado e todo investimento é devolvido aos patrocinadores. Geralmente a devolução é feita na forma de crédito para aplicação em outras ideias em divulgação no site.

O crowdfunding não é uma fonte mágica de dinheiro. Para a iniciativa dar certo é preciso tomar medidas básicas, como por exemplo, enviar e-mails para amigos próximos e familiares, de modo que eles possam ser os primeiros a contribuir e alavancar a ideia; utilizar de seu blog pessoal, sua página no Facebook, sua conta no Twitter e sintonizar todos os que possam estar ao seu alcance para que lhe deem o suporte necessário até chamar a atenção dos anônimos.

Fazer um vídeo pode ser intimidante, porém é um desafio que vale a pena. Ele diz que você se importa o suficiente sobre o que você está fazendo a ponto de se expor. É um risco pequeno, com uma grande recompensa.

Os projetos podem ficar expostos de um a 90 dias, no entanto, uma maior duração não é necessariamente melhor. Estatisticamente, os projetos com duração de 30 dias ou menos, têm maiores taxas de sucesso.

Nesse novo modelo, quem financia, o faz porque gosta e se identifica com as ideias. Surge então, a oportunidade de fazer parte de algo grande, mesmo contribuindo com pouco. Há diversos exemplos de sucessos que vêm fazendo com que o crowdfunding se torne cada dia mais conhecido e levado a sério. Vejamos alguns:

 

Cidade para Pessoas

Puxe o assunto “problemas da nossa cidade” em qualquer mesa de boteco e a abordagem, salvo raríssimas exceções, será sempre a mesma: “o trânsito anda infernal” ou “andar de bicicleta em cidades como São Paulo é para loucos”.

 Em teoria, as cidades deveriam ser repletas de espaços públicos de convivência e trocas sociais, culturais e intelectuais. Mas com o passar dos anos a ocupação dos espaços públicos foi substituída por uma necessidade de se proteger deles. Ninguém mais se sente seguro andando fora do seu carro, usando transporte público ou morando no Centro.

Partindo dessa realidade, o projeto Cidade para Pessoas nasceu com o objetivo de tentar entender como resolver esses problemas que já sabemos que existe em toda grande cidade e, assim, transformar os espaços públicos em bons lugares para se viver. Mas como fazer isso? Viajando por 12 cidades do mundo durante um ano para tentar responder a essa pergunta.

O critério de escolha dessas doze cidades foi baseado no trabalho do arquiteto dinamarquês Jan Ghel, que atuou nelas como consultor. A proposta é morar durante um mês em cada uma dessas doze cidades que têm projetos de planejamento urbano e, que por isso, as tornam num dos melhores lugares para as pessoas viverem.

Jan Gehl uma vez disse: “sabemos tudo sobre o habitat ideal de todas as espécies de animais do mundo, menos o do homo sapiens”.
Ele dedicou sua carreira de planejador urbano tentando criar esse tal habitat ideal, e o Cidades para Pessoas segue seus ideais.

Com o projeto, a jornalista Natália Garcia já percorreu, de maio a novembro de 2011, sete cidades na Europa: Copenhague, Amsterdam, Londres, Paris, Lyon, Freiburg e Strasbourg em busca de boas ideias que tenham melhorado esses centros urbanos para os moradores. Essa fase da viagem foi financiada com os 25 mil reais arrecadados por meio de crowdfunding na plataforma Catarse.

O resultado são reportagens publicadas em Creative Commons, um livro sobre a experiência da viagem, vídeos e material didático com informações sobre planejamento urbano para serem distribuídos em escolas públicas.

O Cidades para Pessoas terá uma segunda etapa de viagem que vai percorrer as cidades de Barcelona, Rishkesh, Accra, Seoul, Melbourne, São Francisco, Nova Iorque, Portland e Cidade do México. O trabalho será o mesmo: continuar a colher ótimas ideias para a melhoria dos espaços urbanos, e torná-los um lugar mais agradável e útil para todos.

Ajude um repórter

Criado em março de 2010 pelo relações-públicas Gustavo Carneiro, o Ajude um Repórter nasceu com a missão de democratizar o acesso à imprensa. 

O serviço publica solicitações de jornalistas de diversos veículos de comunicação do Brasil e até de outros países, permitindo que qualquer pessoa possa compartilhar seu conhecimento e participar de matérias que serão publicadas. As principais emissoras de TV, rádio e jornais utilizam constantemente o serviço em suas redações.

O Ajude um Repórter é um projeto que nasceu de uma forma muito simples e quase sem investimento, mas que conseguiu entregar valores para jornalistas e fontes todos os dias, sem cobrar absolutamente nada por isso. Após mais de 18 meses funcionando apenas pelo Twitter (@ajudeumreporter), o projeto conseguiu, em março de 2011, captar os 15 mil reais necessários através do site Catarse para criar sua própria plataforma de relacionamentos que tem ajudado repórteres a encontrarem fontes para suas matérias.

O cadastro no site é rápido e dividido em dois grupos: jornalistas e fontes. Ao selecionar o perfil de uso, basta o usuário escolher uma das redes sociais pela qual ele deseja se conectar. As opções são Twitter, Facebook ou Linked In.

A lógica de funcionamento é bastante simples: O jornalista cria uma nova solicitação preenchendo o formulário e publica para que as fontes tenham acesso. 

As fontes, por sua vez, possuem um painel com acesso direto aos pedidos publicados e podem visualizar as solicitações em aberto para enviar a melhor resposta e participar das matérias. Todas as respostas são privadas outros usuários não têm acesso ao que a fonte escreveu para o jornalista.

O Ajude um Repórter conecta jornalistas e produtores de conteúdo a fontes e personagens para matérias que ainda estão sendo produzidos.

O idealizador Gustavo Carneiro acredita que existem formas diferentes de se relacionar com a imprensa e que ela pode ser acessível a qualquer pessoa. A ideia do projeto é democratizar esse acesso e oferecer novas fontes aos repórteres e novas oportunidades a quem busca espaço na mídia.

Sem dúvida esse foi mais um grande exemplo de sucesso que ocorreu graças à contribuição financeira e moral de pessoas que acreditam no poder multidão.

 Pebble: o Smartwatch

Eric Migicovsky

Quando o engenheiro Eric Migicovsky decidiu desenvolver uma nova linha de relógios de pulso ele seguiu o caminho tradicional e procurou as companhias de capital para que financiassem sua ideia, mas como muitos, não foi atendido. Por isso, decidiu recorrer ao site Kickstarter para obter dinheiro suficiente para lançar o que está sendo hoje um dos maiores exemplos de sucesso da plataforma coletiva, o relógio Pebble.

O objetivo inicial era de captar 100 mil dólares, mas surpreendentemente o projeto acabou em pouco mais de um mês contando com a ajuda de mais de 68 mil colaboradores o que gerou uma arrecadação de mais de 10 milhões de dólares em financiamento coletivo.

Segundo Eric “o Pebble é o primeiro relógio construído para o século 21”. Ele é infinitamente personalizável, com diversos visuais de face que podem ser baixados de aplicativos. O Pebble se conecta a iPhones e smartphones Android usando o Bluetooth. Todas as atualizações de software são transmitidas sem fio do celular ao relógio, alertando o usuário com uma vibração silenciosa de chamadas recebidas, e-mails e mensagens.

São os aplicativos que dão vida ao Pebble. Os ciclistas podem usar Pebble, por exemplo, como um computador de bicicleta, acessando o GPS em seu smartphone para exibir a velocidade, distância, ritmo e outros dados diretamente no relógio. Já os corredores podem obter esses dados diretamente em seu pulso. É possível também utilizar aplicativos de controle de música para reproduzir, pausar ou pular faixas no telefone com um toque em seu Pebble.

E simplesmente para aqueles que precisam ficar conectado e alerta a todo tempo, o Pebble pode ajudar com notificações por vibração de mensagens do twitter e facebook e até mesmo alertas meteorológicos.

Os investidores que apoiam projetos de financiamento coletivo sempre recebem alguma forma de recompensa por sua contribuição. No caso do Pebble, a recompensa foi o próprio relógio, o que tornou o projeto mais atraente.

O Kickstarter até o momento já arrecadou mais de US$ 200 milhões para 20 mil projetos diferentes. Ainda que os mais comuns girem em torno de filmes e músicas, o site vem se provando especialmente útil também para novos produtos da área tecnológica.

Isso se dá principalmente pelo fato de o setor tradicional de capital hesitar em investir em empresas iniciantes de hardware. Contudo, os sites de crowdfunding vêm com força para alavancar essas novas ideias e não faltam exemplos de sucesso.

SPOT.US –  Jornalismo com financiamento e colaboração do cidadão

O projeto foi criado em outubro de 2008 pelo jornalista David Cohn. O Spot.Us é um site de notícias que propõe um modelo diferente. O financiamento das reportagens e as sugestões de pauta vêm diretamente dos usuários de forma individual. A iniciativa se define como uma pioneira em projetos de reportagens movida pela comunidade. Com um cadastro gratuito, qualquer internauta pode sugerir pautas.

Atualmente existem mais de 13 mil colaboradores cadastrados. Diferente de outros exemplos, a contribuição financeira não é mediada por sites de Crowdfunding, pois o Spot.us tem seu próprio modelo de arrecadação, que na realidade segue a mesma ideia de outros.

 

Os temas para construção das reportagens são livres, e estas sugestões são chamadas ‘tips’ (dicas). Nelas são descritas questões que o usuário-autor considere pertinente para ser investigada. Estas sugestões ficam no site em uma das seções existentes, que abrangem várias esferas da sociedade, como política, educação, justiça criminal, entre outras. Cabe, então, aos repórteres cadastrados construírem propostas mais específicas de reportagem sobre estas ideias. Quando isto é feito, a ‘tip’ original é substituída por uma ‘pitch’ (proposta).

Esta nova proposta já está vinculada a um repórter, que a cumprirá caso ela seja totalmente financiada, ou seja, quando ela atingir sua meta de arrecadação. O jornalista deve detalhar como será sua atuação, seus objetivos e como a reportagem ajudará a sociedade neste assunto. Na página deve haver também uma breve descrição das qualificações do repórter e de seu trabalho. Neste estágio, as contribuições feitas pelos usuários são efetivamente recolhidas e discriminadas na página. Uma barra informa quanto dinheiro já foi levantado e quanto falta para atingir o nível necessário. Quando a quantia total é reunida, o jornalista cumpre a pauta, em um tempo que varia de duas semanas a dois meses, dependendo da complexidade.

Há ainda o recurso dos ‘assignments’. Ao realizar uma pauta, o repórter pode pedir – se julgar necessário – a ajuda de um usuário em algum ponto da reportagem: tirar fotografias, explorar documentos, conduzir entrevistas etc. Os usuários se candidatam e o jornalista aceita aquele que considerar mais adequado.

Quando a reportagem é finalizada é publicada no Spot.Us, em uma seção específica, sob licença livre permitindo a qualquer pessoa republicá-la, desde que credite os autores e o Spot.Us. Também é possível que seja feita parceria com uma empresa jornalística. Se ela financia 50% do valor da notícia, em troca, pode publicá-la primeiro. Quando isto acontece, o valor financiado pela comunidade volta aos indivíduos na forma de créditos que podem ser direcionados para outras pautas. Entre as organizações jornalísticas que trabalham com o Spot.Us está The New York Times e mais de 100 outros parceiros.

A cobertura do site engloba, sobretudo, o estado da Califórnia, nos Estados Unidos, principalmente nas cidades de San Francisco, Oakland e Los Angeles. Os repórteres cadastrados são freelancers. Suas qualificações variam e os profissionais podem ser iniciantes ou experientes, desde que provem competência.

A proposta do site é importante e bastante atual porque torna viável a execução de matérias e investigações de interesse público, que poderiam ser anulados por conta das amarras e limitações impostas por mecanismos tradicionais da mídia. Além de tornar possível a total participação do cidadão na construção na notícia, contribuindo assim para a transparência que o jornalismo merece.

Como pode ser observado, existe hoje uma tendência de participação cada vez maior das pessoas, nas mais variadas esferas da sociedade, através da internet. Essa maior participação está acontecendo graças às inovações tecnológicas, que tem permitido assim, a criação de novos modelos empresasariais e novas formas de construção da notícia.

Pessoas comuns com grandes idéias têm tido a chance de jogar seus projetos ao mundo e serem apoiadas por outros empreendedores. Sem dúvida estamos caminhando em tempos de mudanças no âmbito empresarial e comunicacional, e essas plataformas de colaboração e financiamento coletivo serão um de seus alicerces.

ENTREVISTA COM DAVID COHN

David Cohn

David Cohn é o fundador e ex-diretor do Spot.Us,  a organização sem fins lucrativos que é pioneira no financiamento coletivo para o jornalismo. Na área acadêmica, é professor na escola de jornalismo da Universidade de Berkeley, além de ter escrito diversas vezes para jornais de expressão, entre eles, o The New York Times.

Atualmente David deixou o comando do Spot.us  para começar seu novo projeto Cir.ca. E mesmo estando altamente ocupado, atendeu ao email e pediu desculpas por ter que ser breve em suas argumentações. De qualquer forma, ele respondeu a várias questões sobre essa nova face do jornalismo em que vivemos. Espero que curtam!

Tradução livre por Vinícius Magalhães

1 – David, a Indústria Jornalística vem sofrendo drásticas mudanças, grande parte devido ao boom da internet nos últimos anos. Eis que surgem então projetos avant-garde como o Spot.us, que estão orientando pessoas e empresas a repensarem e buscarem  uma nova proposta para o jornalismo. Como você vê a importância da plataforma Spot.us e outros startups jornalísticos nesse novo cenário que surge?

David:  Eu acho que a importância desses projetos se dá justamente por eles serem experimentos. Ninguém sabe o que vai acontecer. Nós apenas sabemos que a atual trajetória da indústria jornalística está falindo e não está funcionando mais.
Eu acredito que seja importante exceder os limites do jornalismo – mesmo que isso não faça sentido mercadológico – pois faz sentido para o processo jornalístico. Projetos como Spot.us e tantos outros fazem com que o jornalismo hoje seja mais forte do que no passado, talvez não financeiramente,  mas capacita mais cidadãos para o jornalismo.

2 – No atual cenário digital, muitas empresas jornalísticas tradicionais apenas mudaram seus modelos de arrecadação de recurso para continuarem a existir, seja através da venda de assinaturas online ou da venda de conteúdo para plataformas digitais moveis. Por outro lado, não mudaram em quase nada seu modo de construir a notícia. Você acredita que as mídias mais antigas estão deixando para outros a missão de explorar esse novo cenário?

David:  Eu acredito que as organizações tradicionais de jornalismo fazem o que podem. Devido a sua inércia mercadológica elas ficam sem muitas escolhas sobre o que podem tentar mudar. Faz sentido uma vez que a maioria de seus projetos e experimentos têm sido feitos sob uma linhagem mais empreendedora. E isso é bom! Mas eu acredito que há também um papel a ser desempenhado pelos cidadãos, completamente fora desse contexto institucional. Eu acho isso importante porque não há críticas ou questionamentos se você trabalha fora desse contexto.
Porém você pode achar que iniciar algo a partir do zero possa ser libertador, mas apesar de você não estar atrelado a essa inércia mercadológica, você pode pagar de uma outra forma: quando se começa algo do zero, isso significa que você terá recursos limitados.

3 – David, o Spot.us surge com uma proposta de mostrar que é possível amenizar a dependência financeira da publicidade no que diz respeito ao jornalismo? 

David: Sim. Eu acredito que isso nos mostra que podemos repensar sobre o atual modelo mercadológico e publicitário como um todo. Veja só: http://www.pbs.org/idealab/2010/11/how-spotus-doubled-its-grant-money-with-community-focused-ads320.html

4 – Muitas vezes quando as pessoas falam sobre participação do cidadão no processo jornalístico, algumas pensam em atos como: comentar, envia fotos/vídeos ou compartilhar algo nas redes sociais, mas o Spot.us prova que essa participação pode ir além. Uma vez que a comunidade pode se organizar e financiar uma investigação que seja de importância para ela e para sua localidade. Você acredita que uma forma de participação cidadã tão ativa como essa ajuda na transparência da notícia?

David: Sim. A participação do cidadão no jornalismo não significa apenas que ele possa contribuir com conteúdo. Essa é apenas uma das maneiras das quais ele pode se envolver no processo jornalístico. Há outras mais. As pessoas podem, por exemplo, participar no processo editorial e na tomada de decisões, para assim dar sua opinião sobre quais histórias deve-se abordar. Essa são escolhas muito importantes para construção da notícia, e é bom que o público possa participar dessa forma.

5 – Você acredita que é possível conseguir uma auto-suficiência mesmo sem o dinheiro advindo da publicidade, ou os jornais na verdade precisam de múltiplas formas arrecadação?

David:  Sem dúvida múltiplas formas de arrecadação. Apenas um fluxo de arrecadação não é suficiente.

6 – Há um declínio da velha Indústria Jornalística. Ela está tendo que se inovar e se adaptar as novas mudanças impostas pelo avanço tecnológico e comunicacional. Você acredita que a tendência é que o jornalismo fique cada vez mais independente dessa indústria?

David:  Sim. E eu acho que é importante citar aqui que há uma distinção entre a indústria jornalística e o processo jornalístico. O processo jornalístico está vivo e forte – talvez mais forte do que nunca na história do jornalismo –  isso devido a participação cada vez maior das pessoas. Mas a indústria… ela é fragil.

7 – Há cada vez mais participação coletiva do cidadão. Muitas empresas jornalísticas aceitam essa colaboração porque acabam também recebendo conteúdo gratuito. Por outro lado, o jornalista quer defender seu emprego. Como você enxerga essa questão tão complicada?

David: Eu na verdade acredito que esse seja um falso argumento. Dê uma olhada: http://blog.digidave.org/2009/05/can-professional-journalism-ever-replace-citizen-journalism

8 – David, o que você espera para o jornalismo nos próximos anos?

David:  Eu espero que o jornalismo continue ultrapassando os seus limites e que ele encontre o seu caminho.