Se liga! A Luta é social

A militância jovem grita e faz a diferença através dos tempos

Por Juliana Neves

manisfetação do movimento estudantil

 Os efeitos atuais dos constantes escândalos na esfera pública têm assustado a população mais jovem e gerado consequências evidentes entre eles. Dentre estereótipos como alienados, desinteressados e inconsequentes, talvez o que mais se encaixe seria algo mais romântico, como desiludidos. Esse grupo, entre 16 e 29 anos, soma cerca de 48 milhões da população brasileira. De acordo com dados da Unesco, 73% diz não ter nenhum interesse em participar politicamente do rumo de seu país, 96,1%  diz não confiar no poder legislativo e 69,5%  não confiam no judiciário.

Enquanto a imagem da política parece estar em decadência por uma parcela significativa dos jovens brasileiros, ainda há uma corrente, mesmo que rasa, que vem ganhando força. Os movimentos organizados. Dispostos em grupos diversos e com diferentes objetivos, os jovens que se empenham em partidos e grupos sociais geralmente iniciam o interesse pelo campo político a partir dos diretórios acadêmicos e movimentos estudantis dentro das escolas e universidades e acabam levando isso para fora dos muros disciplinares e colocando em ação no “mudo real”.

Para Marina Lemos, 26 anos, formada em letras, estudante de relações internacionais na USP (Universidade de São Paulo)  e militante ativa pela UJS (União da Juventude Socialista), “o jovem desconfia do poder, da sociedade onde vive e do futuro desta sociedade” Segundo a militante, essa desconfiança não é privilégio dos brasileiros, mas “ aqui, a situação parece ser mais alarmante, primeiro por que é o que estamos vendo de perto, e segundo, temos que levar em conta que a democracia brasileira – apesar de ser recente e, portanto, ainda em amadurecimento –  está estável desde que nascemos. Nós vemos escândalos de corrupção,  mas não vimos de maneira consciente a crise de 92, ou a briga pela democracia. Nós vemos o agora, ele nem sempre parece agradável, mas já não é tão ruim quanto foi para os jovens do passado. Estamos em um meio termo.”

 Marina coloca a democracia atual como uma jovem adulta, ainda está crescendo e aprendendo, mas já passou da fase pré-adolescente problemática. “Na UJS, somos um movimento primeiramente estudantil, mas isso não significa uma luta restrita, nós queremos melhores condições de educação, sim! Mas queremos também que a mulher seja respeitada, assim como as etnias, as religiões e opções sexuais. Queremos condições de saúde e acesso a cultura. E essa luta é nacional, é minha, é sua. Ficar de braços atados falando mal dos escândalos não vai mudar nada. Eu quero fazer a diferença, e mudanças significativas são conseguidas através de militância. O movimento específico e organizado é essencial para isso, você tem pessoas unidas num mesmo propósito e ajuda a amadurecer sua consciência critica e politica.”

encontro do movimento estudantil

Para Thaís Tavares, 19 anos, estudante da UFF (Universidade Federal Fluminense), militante no movimento estudantil Kizomba e filiada ao PT (Partido dos Trabalhadores) ser jovem e estar na política é algo normal “Tenho muitos amigos que são membros orgânicos (ativos) dentro dos partidos. Na juventude do PT nós construímos novas ideias juntos e é algo normal, faz parte do nosso cotidiano”. Quando questionada sobre os jovens dentro dos espaços públicos ela concorda que há resistência não apenas do jovem, mas da população em geral. “quando se é novo, você é classificado preconceituosamente como “descabeçado” ou alguém que tem grandes chances de cometer graves erros. O jovem por sua vez, se auto-classifica como alguém que tem que “curtir”, mas eu não sei de onde surgiu a ideia de que você não pode errar  ou a de que não pode se divertir e estar na política ao mesmo tempo ”. Segundo a estudante, o intuito de organização é exatamente o de fazer pensar junto e unir forças “ Se você errar tem um monte de gente para te corrigir” ela completa enfatizando que é possível conciliar e separar, mesmo que minimamente, a vida política e pessoal. “ Não é como se fossemos de outro planeta, eu também namoro, vou à festas, shows, fico no facebook e nada me impede de estar ativa dentro do partido,” explicou, dizendo ainda que apesar da conciliação, as escolhas na vida de um militante acabam sempre passando pelo ativismo.

UNE e Juventude do PT

Sobre a candidatura de jovens à cargos públicos, Thaís foi contundente:  “tenho amigos de 20 anos que vão vir como candidatos a vereadores nestas eleições, e estamos confiantes na vitória.” Para a universitária não existe idade certa para se envolver com causas públicas e sociais “É claro que há coisas que apenas a experiência te ensina e isso só se consegue com o tempo, mas é necessário se fazer algo ao longo desse tempo, e por que não buscar melhorias, lutar por políticas especificas, participar de movimentos organizados e se politizar?” concluiu dizendo  acreditar que sua geração pode continuar o trabalho dos jovens do passado. “Acredito na minha geração e na que está por vir, mesmo que digam o contrário, não pretendo deixar de acreditar.”

Entre o ontem, o hoje e o amanhã

A história fala por si só

manifestação de estudantes é contida pela PM

No mesmo ritmo em que a juventude é vista como o futuro do Brasil, é apontada como perdida. Para entender essa gente que quer mudar o mundo com a mesma intensidade que quer aproveitá-lo, é necessário que olhemos para os jovens de ontem para conhecermos as transformações que enfrentam e provocam.

 A juventude sempre esteve presente em momentos importantes na história. No Brasil, não foram raros os momentos em que a voz vigorosa dessa parte da população se organizou e tomou forte e decisivo posicionamento perante a sociedade, defendendo no grito e na raça seus ideais e sendo elemento de peso na transformação da história e do rumo do país.

 A carioca Maria Aparecida, de 62 anos, que pediu para ser identificada apenas pelos primeiros nomes, é professora de história e especialistaem política. Sobresua vida, ela conta que passou sua juventude engajada em causas pública, parte da idade adulta estudando os jovens do passado e a outra parte lidando com os jovens nas salas de aula, por isso se considera uma Mestre quando o assunto é “essa gente que está conhecendo o mundo”. Ela tinha 14 anos quando o Brasil viveu um dos momentos mais marcantes já registrados, o Golpe Militar. Quando questionada sobre como foi o ativismos jovem neste período, diz que era “rebelde desde cedo” mas que a história começou muito antes dela.

O início

Maria lembrou que em 1710, enquanto a cidade do Rio de Janeiro era invadida por cerca de 1200 soldados franceses, uma multidão de estudantes se destacou ao enfrentar os invasores, causando a perca de mais de 400 oficiais franceses, vencendo o confronto e expulsando-os da cidade. Em 1786, 12 jovens fundaram um clube pela independência do país e foram fundamentais na Inconfidência Mineira. A professora usa o momento para enfatizar que a luta sempre esteve presente se adaptando às circunstâncias.

UNE pelo Brasil

Consultando os livros, Maria Aparecida fala sobre o momento que considera um dos mais importantes: a fundação da Federação de Estudantes Brasileiros, ocorrida em 1901, que iniciava a organização dos estudantes em entidades representativas e 36 anos depois, em 1937, era criada a UNE (União Nacional dos Estudantes) a entidade máxima de representação dos jovens universitários. Segundo Maria, a UNE foi fundamental não só para o país, mas para ela mesma.

– É claro que em 1937 eu nem era nascida, mas resgatar esse momento, ainda mais repassando para os jovens de hoje, cria um sensação de gratidão a esses nomes que em um belo dia resolveram se organizar, mesmo que os motivos não fossem os que consideramos os mais nobres e as relações fossem diferentes, mas eles agiram. Isso mostra que lugar de jovem é na política usando todas as ideias e mostrando coragem. Eu gostava disso, de arriscar e brincar com o medo. A sensação de afrontar e mostrar que podemos fazer algo maior que nossa casa é maravilhosa. Antes isso era um escândalo, era em 1970, imagine em 1937. Não acredito que quando criaram a UNE imaginaram que seriam tão importantes para o país, mas foram. Foram importantes para minha vida, sou essa mulher de 62 anos com três netos e loucas histórias de aventuras para contá-los porque um dia me “enrabichei” por um ator de teatro, um “subversivo” que me levou para União que por sua vez mudou o meu mundo.

Ao continuar a história, a professora conta que em 1952 os jovens foram novamente fundamentais com a campanha “O Petróleo é nosso” pela criação da Petrobrás. E nos anos de 1961 à 64 eles foram responsáveis por um dos mais significativos acontecimentos de movimentação cultural no Brasil. Foi a época do CPC  (Centro Popular de Cultura) da UNE que influenciou toda uma geração. “O CPC  reunia artistas, filósofos, intelectuais e estudantes que queriam transformar o país com ações culturais e desenvolvendo consciência crítica nas classes trabalhadoras e nos subúrbios da cidade.” Os projetos levavam oficinas de literatura, cordel, musica, dança e filosofia para vários pontos do Rio de Janeiro. As tentativas de expandir para outros estados acabou não dando certo. Em 1964, logo após a queda de João Goular e o Golpe Militar, o Centro foi fechado por representar um “perigo” para a ditadura. Os críticos e historiadores mostram que as percepções desses jovens sobre os vínculos entre arte e política contribuíram para delinear as características da produção cultural brasileira nas décadas seguintes.

Frente à Ditadura Militar

O Golpe, instituído em 1º de abril de 1964, durou até 1985. Neste período as eleições eram sem a participação direta da população. Os Jovens formaram uma das principais resistências contra o regime, utilizando de jornais clandestinos, manifestações nas ruas, ou através de músicas, teatros e até mesmos de grupos armados.  Em 68, após o assassinato do estudante Edson Luís, a UNE foi atacada durante uma reunião onde centenas de jovens foram presos, torturados e mortos. No mesmo ano, em reposta, a juventude organizou a passeata dos Cem Mil, que tomou as ruas do Rio de Janeiro com jovens e cidadãos que apoiavam a causa contra os abusos dos militares.

Maria Aparecida se empolga nesta parte da história “eu tinha meus 18 ou 19 anos, foi quando comecei uma paquera com um rapaz completamente fora do aceitável para meus pais” ela se diverte ao lembrar que na época em que se juntou aos “rebeldes” estava querendo, na verdade, ficar junto ao namorado. “imaginem uma garota com faixa na cabeça e aquelas saias ridículas, completamente apaixonada. Era a Maria em 1968 ou70.”

– O namoro acabou, mas a luta continuou. Nesse período usávamos nomes diferentes e foi quando nos demos conta do que estávamos fazendo. Foram os piores anos, os Anos de Chumbo. Os motivos de estarmos na causa se tornaram mais forte do que seguir um namorado ou qualquer outra coisa. Pessoas estavam morrendo, amigos sumiram, acho que foi quando me dei conta de que tinha me metido em uma confusão, mas não tinha volta. Estava apaixonada, desta vez pela causa nacional. – concluiu muito emocionada.

De Diretas Já ao grito dos Caras Pintada

Maria conta que por ter cedido ao medo teve que se mudar “Saí do Rio no fim dos anos 70, início de 80. Um pouco antes, um grande amigo foi preso e torturado. Foi a primeira vez que os ‘milicos’ pegaram alguém tão próximo. Então, fiquei grávida do meu primeiro filho, foi o suficiente para me fazer sair da cidade”, explicou, dizendo que até os dias de hoje não sabe se fez o certo. A professora conta ainda que o mais perto que voltou a estar da luta contra os militares foi pelos relatos de amigos e conhecidos. “Eu já tinha mais de 30 anos quando assisti de longe os estudantes se re-organizarem depois daquele filme de horror que passamos, e terem “peito” para aquele grito fantástico, foi de arrepiar”, disse Maria Aparecida, lembrado que em 1984, após restabelecerem as entidades estudantis, os jovens levaram para as ruas o grito “1,2,3,4,5 mil. Queremos eleger o presidente do Brasil!” Diretas já! O movimento teve participação fundamental dos estudantes além da população e políticos progressistas que exigiam aos berros a volta das eleições diretas. “Era o governo do João Figueiredo, nessa época eles [o governo] ficaram loucos, a censura da imprensa era absurda, só víamos o que eles queriam e muita gente foi presa.” lembra, ressaltando que infelizmente, a vitória naquele ano não foi completa. “Fiquei revoltada quando não tivemos eleições diretas em 85, mas ao menos Tancredo assumiu e isso foi, sem dúvidas, muito importante. Ele era um dos que apoiavam o movimento, juntamente com Lula, Brizola, Fernando Henrique, Chico Buarque, Mario Lago, entre vários nomes”

  

Somente em 1990, depois de 34 anos sem eleições diretas, o povo elegia para presidente do Brasil, Fernando Collor de Melo. Era chegada a vez da juventude de 1992 tingir o rosto de verde e amarelo e intervir na política nacional. Os Caras Pintadas lutaram e conseguiram o Impeachment histórico do então presidente.

De FHC à Dilma Rousseff

No fim dos anos de 1990 e início dos anos 2000, os estudantes começam uma série de denúncias contra o governo de Fernando Henrique Cardoso. Eles acusavam o então presidente de neoliberalismo e traição nacional devido os processos de privatizações do governo. A bandeira erguida por milhares de militantes que tomaram Brasília foi: “Fora FHC”. O movimento acabou sendo decisivo nas eleições presidenciais de 2002, onde o PSDB ( Partido da Social Democracia Brasileira)  de Fernando Henrique, não conseguiu eleger José Serra que perdeu nas urnas para Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, que teve o apoio dos jovens  com a campanha “Lula UNE o Brasil”.  Com o apoio dos estudantes o governo criou a Secretaria Nacional de Juventude e o Conselho Nacional de Juventude, que coordenam e acompanham projetos como o Pró-Jovem, ProUni, Agente Jovem, Primeiro Emprego, Escola de Fábrica, Juventude e Meio Ambiente, Pornaf Jovem e Nossa Primeira Terra.

Em 2010 os estudantes apoiaram a ex-militante estudantil na época da ditadura, Dilma Rousseff, que veio a se tornar a primeira mulher eleita presidente do Brasil.

Em 2012 centenas de jovens foram para frente do Palácio do Planalto com faixas e cartazes de “Veta, Dilma” para pressionar a presidente a vetar o texto do código florestal aprovado pelo congresso.

Maria Aparecida diz que se orgulha do Brasil e se emociona ao falar sobre a juventude de hoje, “Vocês [os jovens] são o futuro do meu passado. Nós lutávamos acreditando em um futuro melhor para o país, e o futuro chegou.”  Ela acredita que a principal diferença entre as gerações, é que antes os jovens abdicavam de tudo pela vida política e hoje tentam conciliar a vida pessoal e a militância. “Quando olho atos como a manifestação contra o código, chego a conclusão que mudam as roupas, as Marias e os Josés, podem até mudar as causas, mas a história é sempre a mesma. O jovem veio para renovar, para mudar, e mesmo que digam que não se importam, são eles os únicos destemidos o suficiente para alterar o rumo das coisas.”

Como mostra a história e cada degrau avançado ao longo dela, os jovens estiveram presentes realizando mudanças e lutando pela realidade nacional desde o Brasil Colônia. Os movimentos organizados de juventude, sociais e de massa, ao lado de entidades representativas e instituições acadêmicas, têm buscado a inclusão de inúmeras reivindicações na pauta da agenda governamental nos planos nacional, estaduais e municipais. E esses, que vão para luta, não são diferentes. Como todo jovem, erram, acertam, se sentem super-heróis, querem aproveitar e ver tudo. São acelerados, ocupados, explodem em ideias e são carregados a mil por hora. A própria ciência mostra que todos esses impulsos e energia são próprios da juventude.  É a fase em que o corpo está pedindo para se aventurar, que o cérebro trabalha com tudo e que a própria inexperiência da vida dá espaço para sonhos altos, que por sua vez, são ponto de partida para grandes conquistas.

Há quem diga que os jovens do passado eram diferentes dos de atualmente, mas talvez, a grande diferença seja que os de 1964 foram confrontados com algo extremo, foram desafiados mais de perto, tiveram o dedo apontado em suas caras, o que acordou o “bicho” da revolução que dorme dentro de cada um. Já os de hoje vivem uma realidade mascarada, com confrontos velados e indiretos. A presença do tal “bicho” não vem sendo desafiada o suficiente, mas os que acordam, levantam com força, com garra e continuam subindo os degraus que por vezes parecem infinitos, mas precisam ser escalados um a um, para que o jovem de amanhã esteja mais perto do topo.

Saiba Mais

Atualmente a UNE, apesar de ter perdido a força que tinha no século XX, ainda está presente em várias instancias pública.  Em Julho de 2011 os movimentos estudantis de todo o Brasil se reuniram em Goiânia para eleger a nova diretoria da União. foram milhares de jovens de todos as regiões e sotaques que lotaram a cidade e o Estádio Serra Dorada para decidir a maior representação de jovens estudantes do país. Do Sul fluminense saíram dois ônibus lotados de jovens engajados na luta política que queriam expressar e apoiar sua chapas preferidas. A Delegação do estado do Rio foi a segunda maior naquele evento, que contou com mesas de debate, troca cultural e grupos de discussões para pensar em políticas voltadas pára a juventude. A chapa vencedora foi a chapa um, que elegeu como presidente da Une , o militante  Daniel Illiescu e para vice-presidente  Clarissa Cunha.

Assista abaixo o discurso de Clarissa Cunha ao defender sua chapa durante a 52² CONUNE ( Congresso Nacional da UNE)

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