Brasil: um país de animais abandonados

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Cães são levados à feira para adoção

Por Larine Flores

Abandono e direitos dos animais no Brasil

 Às vezes, chegam em pequenas caixas, enrolados em cobertores e com os olhos ainda fechados. Em outros casos, aparecem na porta, deixados para trás por uma família que “não pôde cuidar”. Ocasionalmente, se apegam e os laços são criados sem que a família perceba. Talvez alguma tia o ache um presente diferente no Natal. As maneiras com que a adoção de um animal acontece são variadas em quantidade e qualidade, assim como seu convívio e destino.

No Brasil, cerca de dois milhões de cães se encontram em situação de abandono e sabe-se que o número é bem maior quando outras espécies domésticas são contabilizadas. Mas o que leva tantos animais às ruas? No Brasil, uma das justificativas mais populares para o abandono é o desemprego e a crise econômica. A partir do momento em que a família precisa privar-se de algum entretenimento ou até mesmo fazer uma pequena economia, o animal de estimação é o primeiro a sair da lista de prioridades. Nas festas de Natal e Ano Novo, que coincidem com as férias escolares, a situação se agrava e o abandono pode aumentar em até 70%. Os motivos mais comuns são as viagens de fim de ano e a falta de espaço para o animal no destino ou impossibilidade de levá-lo com a família. Em alguns casos, o período é muito longo e não há quem cuide do animal.

Atualmente uma nova modalidade de abandono vem acontecendo e, por incrível que pareça, mais comumente entre as classes média e alta. Os hotéis para animais, pet shops e consultórios veterinários vêm sendo cada vez mais vítimas de golpes em que o dono leva o animal, muitas vezes de raça e pedigree, para tosa, banho, consulta ou estadia, e nunca mais volta. É o chamado “abandono premeditado”, onde o suposto cliente informa nome e telefone falsos e se torna incomunicável quando o animal fica pronto para ir pra casa.

O Brasil ainda não tem uma legislação específica para os animais, portanto, a principal ferramenta de proteção aos animais é a Lei Federal 9.605/98, que trata de crimes ambientais. Segundo ela, “praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos” tem pena de três meses a um ano de prisão e multa, que é aumentada de um terço a um sexto se o animal morrer.

A lei atual considera maus-tratos abandonar, espancar, envenenar, deixar de alimentar, manter preso em corrente ou local pequeno ou sujo, entre outras práticas. Para que o agressor do animal seja punido, é necessário que uma testemunha denuncie a situação, não se omita.

São Paulo, a maior cidade do país, tem pelo menos 60 animais recolhidos diariamente pelo Centro de Controle de Zoonoses. Segundo o Centro, 80% deles não são resgatados e precisam ser sacrificados. O problema não é exclusivamente brasileiro. Nos Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, Suíça e Suécia, a tecnologia já permite que os pets tenham microchips implantados sob a pele, o que possibilita o rastreamento em caso de perda ou fuga, mas também ajuda a localizar o dono de um animal abandonado e puni-lo. Infelizmente, pelo custo elevado, a solução não é acessível para todos os países ou classes sociais.

Apesar das dificuldades e dos números pessimistas, existe um grupo de pessoas que cresce a cada dia: os protetores. O título, que não é mais exclusivo de veterinários ou criadores, é frequentemente empregado para caracterizar pessoas que se importam e realizam ações em prol dos animais. Um protetor muitas vezes não tem oportunidade de fazer grandes doações ou criar um canil em casa, mas muitas vezes um abrigo temporário em dias de clima hostil, enquanto o animal espera transferência ou adoção, durante gestações ou convalescência.

Barra Mansa na luta pela adoção

Em Barra Mansa, interior do estado do Rio de Janeiro, a Associação de Protetores dos Animais é uma das instituições que realizam o trabalho. Além de manter um canil com média de 80 animais onde apenas vítimas de abandono, doenças ou desnutrição extrema são aceitos, a APA-BM promove todos os sábados, de 9h30 às 13h, uma feira nas proximidades da Praça da Preguiça, no centro do município. Lá, os animais têm a oportunidade da adoção e os visitantes podem doar e conhecer o trabalho da Associação.

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Uander com Lassie e Beethoven, filhotes adotados

No sábado, 5 de maio, 12 animais foram adotados no que foi considerada uma “manhã proveitosa”. Entre as famílias adotantes está a de Uander da Silva, que resgatou dois filhotes, Lassie e Beethoven. “Os animais são companheiros. Eu tenho uma irmã pequena que adora animais e sempre pediu que tivéssemos um cachorro e, como não queremos que ele se sinta sozinho, achamos melhor ter dois!”

Não só de adotantes a feira é composta. Dona Maria das Graças Oliveira Seixas, do bairro Boa Sorte, estava lá, levando seus animais para adoção. Os cães Crodoaldo, Tereza Cristina e Griselda, nomeados graças à personagens da novela Fina Estampa, já não são mais tão filhotes. A mãe deles, uma cadela em estado de desnutrição e abuso nas ruas, foi encontrada por Dona Maria já esperando os filhotes e resgatada em sua casa. Depois do nascimento, ela ainda cuidou dos animais até que tivessem idade suficiente para saírem do convívio da mãe. “Por vontade, ficaria com todos, mas moro em uma casa pequena e não existe espaço para todos eles. Prefiro que alguém com espaço e mais disponibilidade possa dar uma vida melhor a eles”, ela declara já com saudade.

Maria Aparecida Moreira, de 58 anos, moradora do bairro São Luís, foi outra adotante. Ela, que se diz uma defensora amorosa dos animais, abraçou seu novo companheiro e confessou quanto um animal faz falta em qualquer casa. “Eu já tive outros animais e não consigo viver sem, adoro criar e cuidar deles, é minha paixão!.”

Infelizmente, na Feira também são atendidos casos não tão felizes. Fabiano Rodrigues de Brito, de 31 anos, é morador da Vila Maria e compareceu ao evento para levar um animal com uma grande lesão no abdômen. De acordo com Fabiano, se o cão não fosse salvo naquele momento, correria risco nas ruas, tanto por outros animais quanto por humanos, que poderiam se assustar com o ferimento e rechaçá-lo. O animal foi acomodado em um abrigo improvisado durante a Feira e levado ao Canil da APA para tratamento.

Maior que o desejo de ver os animais adotados é a responsabilidade para que o futuro deles seja melhor que o passado. Tanto nas Feiras quanto no Canil, o candidato a adotante precisa apresentar um documento de Identidade, CPF, comprovante de residência e um termo de adoção preenchido. O termo nada mais é que uma declaração detalhada das condições familiares e residenciais em que o animal viverá. Se aprovada, a ficha é encaminhada para a sede da APA, onde fica retida por um tempo médio de 45 dias, quando agentes da instituição visitam o local e verificam as informações e a situação do animal.

A APA ainda aponta a necessidade da solidariedade para que cada vez mais animais sejam ajudados. Ração, jornal, cobertores, toalhas e até medicações de outros animais são aproveitadas pela instituição, que tem a maioria da renda advinda de outros apaixonados por animais. Ainda é importante ressaltar que somente voluntários trabalham no local e que qualquer pessoa pode também colaborar.

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A APA-BM conta com doações para manutenção dos cuidados aos animais

A adoção no país também precisa passar pela barreira do preconceito: a maioria dos animais negros, deficientes e mais velhos não é adotada. O canil da APA conta com cerca de 15% de animais na linha da não-adoção e já os considera cativos, já que a adoção é muito improvável. Um dos motivos pelos quais eles não são adotados muitas vezes cai para a crença de que ele não se adapte ou habitue com o novo ambiente. Segundo os protetores, tais animais são ótimas companhias para aqueles que não têm muito tempo ou não podem ser tão presentes no cuidado com o animal. Além de não estarem mais na fase da agitação natural dos filhotes, eles também valorizam mais o contato com o dono, demonstrando um comportamento mais carinhoso.

O problema predominante na questão do abandono é a falta de perspectiva futura no ato da adoção. O animal, filhote, frágil e novidade, deixa de ser interessante em seu crescimento ou comportamento. É necessário que haja conscientização de que, como qualquer ser vivo, o cão ou gato apresentará comportamento próprio e muitas vezes a tolerância precisará ser exercitada no convívio diário. Outro ponto importante é lembrar que o animal tem uma estimativa de vida longa e precisará de cada vez mais cuidados com o passar dos anos.

Cães, gatos e outros animais domésticos são cientificamente comprovados como portadores de sistema nervoso desenvolvido, o que os concede sensibilidade física e também capacita a empatia com sentimentos humanos. No momento do abandono e na situação de rua, eles podem desenvolver traumas assim como os seres humanos, criando comportamentos ariscos, agitados e até mesmo temerosos. Por este motivo, os animais encaminhados para canis e associações são frequentemente pacientes de tratamentos psicológicos onde é valorizado o convívio pacífico com outros animais e o tratamento de respeito e carinho com os humanos. A maioria dos animais não se recupera totalmente, vivendo ainda com os traços das situações de risco que viveram.

Até a data do fechamento desta edição, a Associação dos Protetores de Animais lutava em busca de espaço e infra-estrutura para promover o bingo beneficente em prol dos animais. Contudo, a quantidade de recursos e prendas ainda era limitada.

Abandono de animais: além da superpopulação

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Gatos também são doados na feira


O abandono é, além de um problema que acomete os animais, uma questão de saúde pública que muitas vezes é incentivada e agravada pela própria sociedade. A criação e venda de animais é uma atividade muito condenada pelos protetores. Henia Silva de Vasconcelos, presidente da Associação Protetora dos Animais de Barra Mansa, fala sobre issoe salienta que a procriação compulsiva pode causar diversos prejuízos à fêmea e à cria, que na maioria das vezes não consegue os nutrientes necessários no leite da mãe, já debilitada.

Maus tratos aos animais e a revolta popular

Em dezembro do ano passado, um caso de maus-tratos chocou o país. Uma enfermeira de Formosa, em Goiás, foi gravada enquanto agredia um cão da raça yorkshire. O pior: sua filha de três anos assistia ao espancamento. O caso repercutiu a nível mundial e explodiu na mídia. O vídeo rapidamente se espalhou nas redes sociais e as mais diversas opiniões foram dadas sobre ele. No fim, Camila Corrêa alegou sofrer com a situação, sentir muito arrependimento e estar em choque, mas a população não perdoou. Com a cobrança popular, ela foi julgada pela morte do animal e também por exposição da filha a constrangimento. Graças à primariedade do crime, Camila teve a pena de até um ano e meio de detenção reduzida a uma multa de R$3 mil, que poderá ser revertida em cestas básicas e prestação de serviços.