Medo: Um estigma Social


“Toda segurança é insuficiente quando o inimigo é interno e voraz”

Por André Calcagno

Um dos efeitos do medo é perturbar os sentidos e fazer que as coisas não pareçam o que são.
Miguel Cervantes

As guerras, doenças, assaltos, sequestros, pobreza e a inevitabilidade da morte espreitam a frágil sanidade de nossa sociedade “bem sucedida”. O medo permeia a história da humanidade, tomando várias formas e sentidos. Porém, nos dias atuais este sentimento tomou uma nova dimensão tornando-se mais complexo e por vezes injustificável. Toda segurança disponível nos parece efêmera demais para nos dar paz.

Segundo Zygmunt Bauman, esta realidade de incertezas constantes e vida precária, resultariam na manutenção da “moralidade líquida”. Tal conceito se baseia na afeição da imagem que nós construímos do objeto, ao invés do objeto em si, transformando o outro em um item de consumo que deverá saciar nossas carências sem necessariamente assumimos um compromisso afetivo com o mesmo.

Esta tentativa de suprir nossas necessidades em algo externo a nós não é exclusividade das relações interpessoais. Quando tratamos do medo causado pela violência que assola nossa sociedade, buscamos meios que nos garantam uma sensação de segurança. E ao analisarmos a fundo esta sociedade amedrontada, podemos identificar estruturas de uma arquitetura do medo, que está mais presente no nosso dia a dia através de câmeras, muros cada vez mais altos, cães, seguranças particulares; mas só para quem pode arcar com estes honorários.

Todos estes meios, na verdade, estão longe de garantir nossa liberdade, e acabam por nos aprisionar cada vez mais. Geram a paranóia da constante insegurança, ilhando o indivíduo e favorecendo uma virtualização das relações. Afinal, como diria Bauman: “Manter-se a distância parece ser a única forma razoável de proceder”.

Ainda segundo Bauman, a liberdade sem segurança não tende a causar menos infelicidade do que a segurança sem liberdade. Já Freud em “O mal-estar da civilização” diria que “trocamos uma parcela de nossas possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança”.

Para boa parte das grandes empresas, o medo é um recurso renovável e absoluto para obter lucros altíssimos. Sem ele, empresas de segurança e farmacêuticas dentre tantas outras sucumbiriam. Outro mercado que lucra e exerce poder sobre as massas graças ao medo são os meios de comunicação, principalmente os mais sensacionalistas que geram em nós uma relação dúbia de sentimentos. De um lado a repugnância, o horror e a lamentação diante da violência e da miséria, do outro lado, um gozo secreto pela oportunidade de ver a destruição humana em múltiplas maneiras no conforto de nosso sofá. O resultado destas instâncias não tarda a aparecer, eis o medo.

Uma pesquisa feita por Layne Amaral, professora da Faculdade de Comunicação Pinheiro Guimarães; publicada na revista Logos, em 2007, mostrou que a divulgação da violência pela mídia faz as pessoas adotarem comportamentos amedrontados. Em ‘Mídia e violência urbana: o corpo contemporâneo e as suas afetações em uma cultura de risco’, a autora fala sobre como a mídia costuma tratar a violência com um grau de veiculação exagerada. Baseada em trabalhos do teórico da comunicação norte-americano George Gerbner, ela acrescenta que essa veiculação exagerada nos dá uma sensação de insegurança, ansiedade crescente e faz com que acabemos por desenvolver problemas psicológicos. Não que a mídia seja a causadora desse sentimento, mas acaba de certo, a reforçar e estimular a indústria do medo.

Sociedade de Risco

Para o sociólogo Ulrich Beck, em algum momento dentro da modernidade, houve uma ruptura que nos afastou da sociedade industrial clássica e fez surgir algo diferente: a sociedade (industrial) do risco. Essa ruptura resultaria do fracasso ao tentar desenvolver plenamente a modernidade, dando origem a elementos de contramodernidade como: guerras generalizadas, governos totalitaristas, opressão às mulheres, entre outros. Nesta fase de desenvolvimento da sociedade semimoderna, como nomeou Beck, os riscos políticos, econômicos, industriais, ecológicos e sociais tomam proporções cada vez maiores, escapando da alçada das instituições de controle e proteção da sociedade industrial. Sob a ótica da vigilância e espreita temerosa a qual nos submetemos, a ciência é um dos mais fundamentais meios de legitimação e reconhecimento desses riscos.

Nesta realidade, configura-se um novo tipo de conflito social que não pode mais ser compreendido através da luta de classes postulada por Max. A dualidade aqui se apresenta de maneira completamente diferente, pois se na sociedade de classes a propriedade pressupõe que existam expropriados, os riscos se distribuem de forma democrática: estar afetado e não estar afetado pelo perigo não se polarizam como possuir e não possuir. Ainda que a riqueza traga algumas garantias, traz consigo também novos temores.

A Teoria de Beck é polêmica, mas há um consenso. O risco é um fato cada vez mais presente no cotidiano. Faz-se necessário o debate e reconhecimento desta realidade. Segundo Alceu Mauricio Junior, co-líder e pesquisador do grupo de pesquisa Estado de Direito e Sociedade de Risco na PUC-Rio, a sociedade ainda se mobiliza pouco para as questões do risco, principalmente pela falta de informação. “A deliberação popular é importante, mas necessita ser uma deliberação informada”, enfatiza, lembrando que os cursos de direito e outros da área de ciências sociais devem incorporar o estudo do risco, como forma de preparar esses profissionais para a discussão.

Nunca ficamos e nunca ficaremos livres deste opressor. Mas em uma sociedade que se alimenta de medo, faz-se necessário conhecer suas causas e motivações.

*A pesquisa foi realizada nos dias 19 e 20 de maio de 2012, e consultou 60 pessoas entre 20 e 60 anos.

Não podemos ignorar também que para alguns, sua constância é um alívio, já que não estão preparados para lidar com a liberdade que o controle do medo proporciona. Para nos livrar de qualquer parcela de medo, temos de estar preparados para não termos mais este refúgio contraditório e insólito, afinal “A conquista da liberdade é algo que faz tanta poeira, que por medo da bagunça, preferimos, normalmente, optar pela arrumação”. (Carlos Drummond de Andrade)

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